2.12.02

LÍNGUA ALEMÃ - Aqueles que me conhecem sabem que eu falo alemão fluente. Aliás tenho diploma da USP. Vcs acham que é fácil. Não é difícil. Vide texto:

Uma Aula de Alemão - Wir sprechen Deutsch

A língua alemã é relativamente fácil. Quem sabe Latim e está habituado com as declinações, pode aprendê-la sem grandes dificuldades - ao menos é o que os professores de Alemão dizem em suas primeiras aulas. Em seguida, quando começamos a estudar os der, des, den, dem, die, eles dizem que é moleza: tudo é apenas uma questão de lógica. Realmente é muito simples; podemos ver isso no exemplo que passamos a examinar.

Tomemos um honesto livro alemão: um volume magnífico, encadernado em couro, publicado em Dortmund, que descreve os usos e costumes dos hotentotes (em Alemão, hottentotten). O livro nos conta que os cangurus, Beutelratten, são capturados e colocados em jaulas, Kotter, cobertas de um tecido, Lattengitter, para abrigá-los do mau tempo. Essas jaulas são chamadas, em Alemão, "jaulas cobertas de tecido", Lattengitterkotter; assim que botam um canguru dentro delas, ele é chamado Lattengitterkotterbeutelratten, "o canguru da jaula coberta de tecido".

Um dias os hotentotes capturaram um assassino, Attentater, acusado de ter matado uma mãe, Mutter, hotentote - Hottentottermutter -, que tinha um filho tonto e gago, stottertrottel. Essa pobre mãe se chama, em Alemão, Hottentottenstottertrottelmutter, e seu assassino é chamado de Hottentottenstottertrottelmutterattentater. A polícia prendeu o assassino e o enfiou provisoriamente numa gaiola de canguru, Beutelrattenlattengitterkotter, mas o prisioneiro escapou. As buscas mal tinham começado, quando surgiu um guerreiro hotentote, gritando :
- Capturei o assassino! (Attentater).

- Sim? Qual? - perguntou o chefe.

- O Lattengitterkotterbeutelratterattentater! - respondeu o guerreiro.

- Como assim? O assassino que estava na jaula de cangurus coberta de tecido? - perguntou o chefe dos hotentotes.

- É, sim, é o Hottentottenstottertrottelmutteratentater (o assassino da mãe hotentote de um menino tonto e gago) - respondeu o nativo.

- Ora , respondeu o chefe, tu poderias ter dito desde o início que tinhas capturado o Hottentotterstottertrottelmutterlattengitterkotterbeutelrattenattentater.


Como dá para ver, o Alemão é uma língua fácil; basta a gente se interessar um pouquinho ...


Outro texto de Mark Twain falando mal da língua



A Medonha Língua Alemã
Mark Twain

"(...) Os alemães usam um outro tipo de intercalação que consiste em dividir um verbo em duas partes e colocar metade dele no começo de um excitante capítulo e a outra metade no seu final. Pode alguém conceber algo mais confuso que isso? Essas coisas são chamadas verbos separáveis. A gramática alemã está infestada com esses verbos separáveis, e quanto mais longe conseguir deixar uma parte da outra, mais feliz vai ficar o autor desse crime. Um dos favoritos é reiste ab - que significa partiu. Aqui vai um exemplo que eu catei de um romance e transpus para nossa língua: "Estando agora as malas prontas, ele PAR - depois de beijar sua mãe e suas irmãs, e mais uma vez apertar ao peito sua Gretchen adorada, que, vestida de singela musselina branca, com uma única glicínia entrelaçada nas generosas tranças de seu rico cabelo castanho, tinha cambaleado escada abaixo, ainda pálida com o terror e a excitação da noite passada, mas ansiosa por apoiar sua pobre cabeça dolorida ainda uma última vez no peito daquele a quem ela amava mais ainda do que a própria vida - TIU" .

"Não devemos, contudo, perder muito tempo com esses verbos, porque isso pode nos levar a perder a cabeça; se alguém se fixa nisso e não é avisado das conseqüências, vai terminando amolecendo o miolo - ou petrificando-o. Os pronomes pessoais são outro fértil aborrecimento na língua alemã, e deveriam ser excluídos. Por exemplo, o mesmo som, sie, significa você, e significa ela, e significa a ela, e significa ele (neutro), e significa eles, e significa a eles. Pensem na pobreza esfarrapada de uma língua que obriga uma palavra a fazer o trabalho de seis - e estou falando de uma porcariazinha dessas com apenas três letras! Mas, acima de tudo, pensem na irritação de nunca saber qual desses significados o falante está tentando me transmitir! Isso explica por que, sempre que uma pessoa me diz sie, eu tento matá-lo - se não for um amigo meu, é claro.

"Agora, observem os adjetivos: aqui está um caso em que a simplicidade do Inglês teria sido de grande vantagem; por isso mesmo - não podia haver outra razão! - o inventor dessa língua complicou tudo o que podia. Quando queremos falar de nosso "bom amigo" ou "bons amigos", em nossa abençada língua, usamos uma só forma e não sentimos remorso com isso [em Inglês: "our good friend or friends"], mas na língua alemã é diferente. Quando um alemão deita as garras num adjetivo, ele vai decliná-lo até que seu próprio juízo entre em declínio. É tão ruim quanto Latim. Ele dirá, por exemplo, no singular - Nominativo: Mein gutER Freund, meu bom amigo. Genitivo: MeinES gutEN FreunDES, do meu bom amigo. Dativo: MeinEM gutEN Freund, ao meu bom amigo. Acusativo: MeinEN gutEN Freund, meus bons amigos. No plural, muda tudo: Nominativo: MeinE gutEN FreundE, meus bons amigos. Genitivo: MeinER gutEN FreundE, dos meus bons amigos. Dativo: MeinEM gutEN FreundEN, aos meus bons amigos. E por aí vai - e vá o candidato ao hospício tentar memorizar essas variações, e vocês vão ver como ele se elege rápido! A única coisa que pode evitar essa encrenca toda é andar mesmo pela Alemanha sem ter amigo nenhum. Claro que eu só mostrei o estorvo que é declinar um bom amigo no masculino; isso é apenas a terça parte da façanha, pois temos de aprender toda uma outra variedade de distorções do adjetivo quando se tratar do feminino ou do neutro. O pior é que existem mais adjetivos nesta língua do que gatos pretos na Suíça, e todos devem ser caprichosamente declinados do modo como vimos no exemplo acima. Ouvi um estudante americano em Heildelberg afirmar, num tom resignado, que preferia declinar dois convites para beber do que um único adjetivo alemão.

"O inventor dessa língua parece ter se esforçado ao máximo para complicá-la. Por exemplo, quando referimos despreocupadamente uma casa, Haus, ou um cavalo, Pferd, ou um cachorro, Hund, escrevemos assim estas palavras. Contudo, se nos referimos a elas no caso Dativo, temos de grudar-lhes um tolo "E" desnecessário: Hause, Pferde, Hunde. Ora, como esse "E" muitas vezes indica o plural, como entre nós fazemos com o "S", o pobre aprendiz de alemão vai levar no mínimo um mês pensando que são gêmeos um único cachorro Dativo; por outro lado, muito estudante novato, sempre com pouco dinheiro, comprou e pagou por dois cachorros mas acabou só levando um, porque ele, pensando burramente estar usando o plural, comprou o cachorro no Dativo singular - o que deixa a lei do lado do vendedor, é claro, pelas estritas regras da Gramática, não cabendo nenhuma ação legal para recuperar o dinheiro."


E por aí a fora.

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